O Brasil em 2025 – Fundamentos econômicos e institucionais
20/07/2026

Fundamentos econômicos e institucionais – Análise setorial. Pelo Comitê Brasil dos CCE.
Em um mundo agitado, repleto de tensões diplomáticas e militares, a América Latina, incluindo o Brasil, parece mais do que nunca uma região de oportunidades, distante das crises na Europa, Ásia, África e Oriente Médio.
A França possui uma ferramenta excepcional e única de apoio à exportação graças à Equipe da França para o Comércio Exterior, coordenada pela Embaixada da França no Brasil: o Comitê Brasil dos CCE; o Serviço Econômico Regional; a Câmara de Comércio e Indústria França–Brasil; a Business France; a Agência Francesa de Desenvolvimento; o Bpifrance; o Atout France; a French Tech; o INPI; o adido aduaneiro.
O presente resumo é parte de um trabalho mais amplo realizado pelos CCE do Comitê Brasil, sob a coordenação do secretário-geral Bertrand LMB de Solere, dirigido a investidores, profissionais e a qualquer pessoa interessada no comércio e nos negócios no Brasil. O Guia de Negócios no Brasil 2025 completo está disponível para consulta na íntegra.
Agradecemos especialmente às equipes do Serviço Econômico Regional (SER) pelo apoio e pela contribuição na revisão deste trabalho.
Frédéric Junck
Presidente do Comitê Brasil dos CCE
1 – Os Conselheiros do Comércio Exterior da França (CCE)
Os Conselheiros do Comércio Exterior da França (CCE) são profissionais voluntários, escolhidos pelo governo francês por sua expertise em comércio internacional. Vindos de diversos setores, eles acompanham as empresas francesas em seu desenvolvimento internacional, disponibilizando sua rede de contatos e sua experiência. Sua missão se apoia em quatro pilares: o aconselhamento aos poderes públicos para reforçar a competitividade econômica francesa, o apoio às empresas em sua estratégia de exportação, a formação de jovens talentos por meio de programas educacionais e mentoria, além da promoção da atratividade econômica da França no exterior. Com presença em mais de 150 países, os CCE desempenham papel-chave no fortalecimento das trocas comerciais e da influência econômica francesa em escala mundial, ajudando ainda a enfrentar os desafios da globalização e da transição econômica.
O Comitê Brasil é composto por 50 membros, incluindo representantes das principais multinacionais francesas dos diferentes setores econômicos, como distribuição, energia, infraestrutura, indústria de defesa, meio ambiente, logística e transportes, setor bancário, seguros, saúde, consumo, agronegócio, comunicação, indústria cosmética, turismo, educação, recursos humanos e indústria automotiva. Empresários franceses no Brasil completam esse comitê, presidido por Frédéric Junck junto a uma diretoria de 10 membros.
2 – Presença francesa no Brasil
Em setembro de 2024, em uma única semana, três grupos franceses anunciaram 4 bilhões de dólares em investimentos e contratos no Brasil, reforçando sua presença em diversos setores-chave. A CMA–CGM adquiriu 48% da Santos Brasil, principal operador portuário e proprietário do maior terminal de contêineres da América do Sul, por 2,4 bilhões de dólares. A VINCI venceu a concessão de uma rodovia estratégica ligando Belo Horizonte a Cristalina, comprometendo-se a investir 1,2 bilhão de dólares. A ENGIE venceu uma licitação para construir 780 km de linhas de transmissão elétrica em vários estados, com investimento de 550 milhões de dólares, consolidando sua posição de líder privado do setor de energia no Brasil.
Além dessas operações recentes, a presença francesa no Brasil é histórica e sólida. Com mais de 1.150 filiais e 44 bilhões de dólares em investimentos acumulados, a França é a 4ª maior investidora estrangeira no Brasil. Os grupos franceses empregam mais de 500 mil pessoas no país, fazendo das empresas francesas os maiores empregadores privados do Brasil.
O Brasil, com seus 213 milhões de habitantes, e o Mercosul, constituem um mercado estratégico para os investidores franceses. As empresas costumam se beneficiar de margens operacionais elevadas em um ambiente político e jurídico estável, ainda que seja frequentemente necessário ter paciência e força financeira.
Por fim, o Brasil e a América Latina estão distantes dos grandes conflitos que parecem desestabilizar o mundo ocidental.
3 – Apresentação geral do Brasil
- 5º maior país do mundo, com 8,5 milhões de km²; 6º país mais populoso do mundo, com 213 milhões de habitantes; primeira economia da América Latina; 9º PIB do mundo em 2023, atrás da Itália e à frente do Canadá (segundo projeções do FMI de outubro de 2024).
- Estabilidade monetária: desde o fim da hiperinflação em 1993, o Brasil aplica uma política econômica baseada em um « tripé »: (i) câmbio flutuante, (ii) meta de inflação e (iii) equilíbrio fiscal. Esse arcabouço foi adotado por todos os governos desde Fernando Henrique Cardoso, garantindo estabilidade econômica. No entanto, em 2024, o Brasil enfrentou desafios: gastos extraordinários ligados a catástrofes climáticas aprofundaram o déficit fiscal, provocando desvalorização do real.
- Motores do crescimento brasileiro: a produtividade brasileira avançou apenas 20% em 40 anos, contra 65% nos Estados Unidos. Historicamente, a economia brasileira privilegiou estruturas protecionistas, limitando a competitividade. O aumento de produtividade dos últimos 40 anos deve-se a (i) urbanização, (ii) crescimento demográfico, (iii) entrada das mulheres no mercado de trabalho e (iv) melhor formação da força de trabalho. Desde 2010, é sobretudo o agronegócio que cresce fortemente.
- As necessidades de investimento: a taxa de investimento do Brasil, de 17,8% em 2022, é inferior à média mundial e à de países comparáveis, gerando um déficit de investimentos estimado em 80 bilhões de dólares por ano. As limitações orçamentárias e constitucionais reduzem a capacidade de intervenção pública, obrigando o governo a colaborar com o setor privado e bancos para financiar necessidades de desenvolvimento, como o saneamento básico. Apesar de ser a 9ª economia mundial, o Brasil ainda está em fase de recuperação.
- Os instrumentos públicos: o Brasil utiliza diversos instrumentos para promover o desenvolvimento. Os fundos constitucionais financiam projetos regionais com 12 bilhões de dólares em 2023, insuficientes diante da demanda. Os bancos públicos e de desenvolvimento, entre eles o BNDES, com carteira superior a 550 bilhões de reais (90 bilhões de dólares), desempenham papel-chave, assim como os bancos multilaterais (BID, NBD) e bilaterais (AFD). Os incentivos fiscais, da ordem de 106 bilhões de dólares, sustentam a infraestrutura, mas são criticados por sua ineficiência.
- Os investimentos estrangeiros: os investimentos estrangeiros (62,4 bilhões de dólares em 2023) são cruciais para o Brasil, compensando um déficit tradicional em transações correntes (–24,5 bilhões de dólares em 2023) e fortalecendo o balanço de pagamentos. Com necessidades de formação bruta de capital fixo (FBCF) estimadas em 20% do PIB para sustentar o crescimento, mas uma taxa de investimento estagnada em 17%, o país segue atrativo graças a um regime jurídico equânime para capitais estrangeiros, tributação vantajosa e condições de entrada simplificadas.
- A estrutura política: na redemocratização, em 1985, o Brasil adotou um sistema presidencialista federal inspirado nos Estados Unidos, porém com uma Constituição formal, impondo normas sociais e econômicas uniformes. O federalismo centrífugo brasileiro é um meio-termo entre a descentralização francesa e o federalismo centrípeto americano. As leis federais prevalecem sobre as normas estaduais e municipais. Politicamente, o país é fragmentado, com mais de 20 partidos no Congresso, sem disciplina partidária, mas capaz de grandes reformas por consenso. O Supremo Tribunal Federal exerce forte predomínio sobre o Executivo e as demais instituições.
- As reformas recentes: o Brasil moderniza-se rapidamente, integrando avanços tecnológicos e reformas jurídicas. Inovações como o PIX, as fintechs e a digitalização de serviços públicos reforçam sua eficiência. No plano jurídico, reformas importantes foram implementadas: a reforma trabalhista (2017) flexibilizou as relações entre empregadores e empregados, a lei de liberdade econômica (2019) reduziu a burocracia, e a reforma tributária (2023) simplifica um sistema complexo com um IVA único, prometendo maior crescimento. Leis como a LGPD (proteção de dados) e a lei anticorrupção reforçam a transparência. Em 2021, foi criado um marco legal para startups, favorecendo a inovação. A lei de imigração (2017) facilita a atração de talentos, essencial para enfrentar o envelhecimento populacional. Essas medidas, combinadas a uma infraestrutura moderna e a um ambiente jurídico mais atrativo, posicionam o Brasil como mercado promissor para investidores.
4 – Análise setorial
- Recursos humanos e mercado de trabalho: no terceiro trimestre de 2024, o mercado de trabalho brasileiro contava com 103 milhões de empregados, marcado por forte informalidade e escassez de mão de obra qualificada em setores-chave como tecnologia e engenharia. O setor de serviços domina a economia (70% do PIB), seguido pela indústria e pela agricultura. A reforma trabalhista de 2017 trouxe mais flexibilidade a contratações e demissões, simplificando procedimentos.
- Formação profissional: a formação profissional no Brasil é crucial diante de uma taxa de desemprego historicamente baixa (6,4% no terceiro trimestre de 2024) e da escassez de mão de obra qualificada. Em 2024, as empresas investiram R$ 1.200 por funcionário, valor ainda inferior aos padrões internacionais. O Ano França–Brasil 2025 oferece oportunidades para empresas francesas.
- Internet e e-business: o Brasil conta com 188 milhões de internautas (88% da população) e 144 milhões de usuários de redes sociais. O e-commerce gerou 37 bilhões de dólares em 2023. As fintechs revolucionam os pagamentos com soluções como o Pix e o Drex, reforçando a inclusão financeira.
- Construção civil (cimento e revestimentos cerâmicos): o cimento, 6º maior produtor mundial, produziu 62 milhões de toneladas em 2023. Os revestimentos cerâmicos, 3º maior produtor mundial, produzem 800 milhões de m²/ano.
- Arquitetura e urbanismo: o setor da construção no Brasil oferece grandes oportunidades, mas exige compreender suas particularidades. Os mercados públicos são complexos e dominados pelo setor privado, que influencia o urbanismo e os planos diretores.
- Saneamento: em 2022, 48% dos brasileiros não tinham acesso a serviços de esgotamento sanitário e 17% não tinham acesso a água tratada. Uma lei de 2020 pôs fim ao monopólio das empresas públicas sobre o saneamento, fixando metas de universalização até 2033 e exigindo 160 bilhões de dólares em investimentos.
- Energia: o Brasil dispõe de uma matriz energética amplamente renovável (90%), com capacidade instalada de quase 237 GW, principalmente hidrelétrica (49%) e solar/eólica (34%). É também ator relevante em petróleo (3,6 milhões de barris/dia) e biocombustíveis, e vem se posicionando no hidrogênio verde.
- Agricultura e meio ambiente: pilar histórico e econômico, a agricultura brasileira domina diversos mercados mundiais (soja, milho, café, carne). 75% das emissões de gases de efeito estufa do país vêm da mudança do uso da terra. O mercado de carbono se desenvolve por meio de créditos voluntários (REDD+, biochar) e de um mercado regulado obrigatório.
- Higiene e beleza: o Brasil, 3º maior mercado mundial de higiene e beleza, vale R$ 125 bilhões em 2024, dominado por Natura, Boticário, Unilever, L’Oréal e uma rede de pequenas e médias empresas.
- Saúde: o Brasil, 9º maior mercado farmacêutico mundial, representa 40 bilhões de dólares em 2023, com crescimento anual de +10%. O sistema público (SUS) atende 75% da população, enquanto o setor privado atende 25% via planos de saúde.
- Turismo: em 2023, o turismo internacional no Brasil atraiu 5,9 milhões de visitantes, gerando 6,9 bilhões de dólares. Em 2024, as chegadas internacionais cresceram 12% (janeiro–setembro), somando 4,9 milhões de visitantes. O Plano Nacional do Turismo 2024–2027 tem como meta 8,1 milhões de turistas estrangeiros por ano até 2025.
- Seguros: a CNP Assurances, ator francês histórico do setor de seguros, está presente no Brasil há 23 anos, onde gera 20% de seus resultados mundiais. Com R$ 34,7 bilhões em faturamento em 2023 e mais de 23 milhões de contratos, a CNP ocupa a 4ª posição no país.
Colaboradores – Conselheiros do Comércio Exterior do Comitê Brasil
- Greg Bousquet – Fundador da Architects Office (AO)
- Alexandrine Brami – Presidente da LINGOPASS
- Olivier Colas – Sócio-gerente da Funchal Investimentos
- Thomas Dubaere – CEO da ACCOR Américas
- Virginie Fernandez – Sócia da OMTARE
- Mathieu Fitoussi – Presidente da SERVIER Brasil
- Manuel Flahault – General Manager América do Sul, Air France KLM
- Hubert Guarino – Especialista em Saúde e Presidente da SCG
- Dominique Hautbergue – Diretor Regional Brasil Cone Sul, AFD
- Patrick Hollard – DG América Latina, África e Oriente Médio, MICHAEL PAGE
- Frédéric Junck – Presidente dos CCE Brasil
- Yves Keller – CEO da VICAT Latin America
- Robert Klein – CEO Brasil e México, VOLTALIA
- Lara Krumholz – Diretora-geral da Dailymotion
- David Montmasson – CEO da SAFRAN Electronics & Defense Brazil
- Geneviève Poulingue – Diretora da SKEMA Brasil
- Pedro Prádanos Zarzosa – Presidente da VEOLIA Brasil
- Maximiliano Villanueva – CEO da CNP Assurances na América Latina
- Michael Reins – CEO da OBRAMAX
- Patrick Sabatier – Diretor de relações institucionais, L’Oréal América Latina
- Bertrand LMB de Solere – Secretário-Geral dos CCE Brasil
Este resumo integra o Guia de Negócios no Brasil 2025 (« Investir au Brésil en 2025 »), publicado pelo Comitê Brasil dos Conselheiros do Comércio Exterior da França, sob a coordenação de Bertrand LMB de Solere. A versão original, em francês, está disponível em: solerelaw.com.
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